Casca oca
A cigarra
cantou-se toda
Sempre escrevi, poucas vezes mostrei a alguém. Escrevo pra mim, pela necessidade de organizar as ideias, por amor, de saudade. Às vezes só escrevo por ter desaprendido, ainda criança, a gritar. Solto palavras num papel, me escapolem palavras como o vapor que assobia, na panela de pressão. Saem espalhadas, desorientadas, acabam por se reagrupar meio sem nexo e ficam assim até eu resolver arrumá-las, ou não. Nessas horas, gosto do computador, não preciso cobrir, rabiscar, refazer, desloco e reorganizo quando dá vontade, quantas vezes quiser, como na casa reorganizo os móveis e objetos. Nem sempre melhora ou ganha sentido, mas areja, movimenta, cria vida.
Algo mudou recentemente, tenho vontade de partilhar, aprendi a gritar e voltei a cantar. Cantava diariamente, em casa, no chuveiro.
É realmente importante partilhar e externalizar o que somos. E somos poeira cósmica, não é divertido?
Defendo a partilha, a autoexpressão, sempre que posso, estimulo cada pessoa a exercitar sua criatividade, em qualquer situação, qualquer linguagem, pele meio que quiser. Defendo a ideia de que o ser humano é antes de qualquer coisa criativo. Criar nos tornou humanos.
Esse blog, ressuscitei pra exercitar a exposição, meio escondidinha, eu sei. Também escrevo aqui porque meus cadernos ficaram muito desorganizados, tenho uns cinco agora, Um para ideias aleatórias , um para anotar meus sonhos, um pequeno para ter sempre na bolsa, e depois repartir as anotações pelos outros, um pra yoga, terapia e meditação e o último pra me organizar, porque não consigo mais usar agenda. Ainda tenho dois cadernos de estudos de vidrado cerâmico e da organização e gestão do ateliê. Nunca estão todos juntos e acabo trocando os cadernos. No momento está um caos! Também tenho arquivos no drive. Então, começar a escrever no blog, pra não enlouquecer.
Quem consegue não enlouquecer nesse mundo caótico, imprevisível, com a expectativa de fim do mundo? Fim do nosso mundo, o que periga acabar é a humanidade. Então é preciso criar! Só criando mesmo! E é urgente esse exercício, é preciso criar um novo mundo, resetar o velho. Sem exercitar a criatividade, sem aceitar nossas ideias idiotas, sem exposição, no segurinho, se defendendo, competindo, fica muito difícil mudar qualquer coisa. É preciso sonhar em coletivo, se permitir, partilhar ideias, medos, fraquezas e forças, colaborar, com generosidade ou simplesmente morremos.
Prefiro projetar utopias, por mais inalcançáveis que sejam. Afinal, só elas podem nos desviar do abismo que temos à frente.
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